Archive for 06/04/20

 

Fabrício Carpinejar 

Minha mulher gosta de miojo. Ela compra pacotes escondidos de mim e armazena longe da despensa para não localizar. Descobri o seu esconderijo esses dias, está no armário da louça para as visitas. 

Eu odeio aquela massa pronta, blocada, unidos venceremos, que desce no prato toda grudada, e com aquele sachê de tempero que é como mastigar a seco um tablete de caldo de carne. Não poderia ser mais artificial. 

Mas sei que o miojo para a minha mulher é mais do que um prato, é a lembrança de sua infância, é um símbolo do parto de sua independência, quando preparava a sua comida pela primeira vez sem se preocupar com ninguém. 

Miojo é solidão. É recuperar um tempo ido, um tempo de prazer secreto e acolhimento. Por isso é uma refeição egoísta, para uma porção apenas. É o equivalente a partilhar uma coxinha ou oferecer um pão de queijo a uma dentada. 

Há alguns momentos em que a Beatriz será solteira dentro de nosso amor. E não é que me ame menos ou que deixou de estar casada, é que naquela sagrada horinha está se amando mais do que me amando. 

Não devo nunca sentir ciúme do seu amor-próprio. 

Não tenho o direito, diante de uma evocação sincera, de estragar o feitiço de sua hipnose, 
esconjurá-la dizendo que não conta como janta, agredir a nebulização borbulhante da panela, amaldiçoar a sua alegria antiga. 

É necessário dar espaço dentro da relação para as manias infantis de cada um. São passatempos importantes, apegos intuitivos, para a saúde mental. 

Para o bem da convivência, faça vista grossa diante dos chicletes ou jujubas ou salgadinhos ou pastilhas de chocolate ou bombons colocados no fundo do carrinho de supermercado. 

Não mate a criança dentro do adulto. 

Eu mesmo quando preciso me religar à alegria de viver devoro aquelas batatas chips em lata. E fico imensamente chateado ao dividi-las. Prefiro que seja absolutamente solitário, na frente da televisão, com a realeza crocante do surto, e com o luxo de entornar os farelos ao final.

"Benditos sejam os que chegam em nossa vida em silêncio, com passos leves para não acordar nossas dores, não despertar nossos fantasmas, não ressuscitar nossos medos. Benditos sejam os que se dirigem a nós com leveza, com gentileza, falando o idioma da paz pra não assustar nossa alma. Benditos sejam os que tocam nosso coração com carinho, nos olham com respeito e nos aceitam inteiros com todos os erros e imperfeições. Benditos sejam os que podendo ser qualquer coisa em nossa vida, escolhem ser doação. Benditos sejam esses seres iluminados que nos chegam como anjo, como flor ou passarinho, que dão asas aos nossos sonhos e tendo a liberdade de ir escolhem ficar e ser ninho."

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