Claudya: “Paguei uma pena muito grande dentro da música brasileira”

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A cantora, que emplacou diversos sucessos na década de 1970 e protagonizou a primeira versão do musical Evita no Brasil, volta a gravar depois de 13 anos


A VOLTA “Sabia que algo de bom estava para acontecer", diz Claudya
“Deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida. Preciso demais desabafar.” Quando a voz da cantora Claudya apareceu, em 2009, em um sampler que o músico Marcelo D2 fez para a canção "Desabafo" muita gente se perguntou de quem era aquela voz. A cantora estava afastada – não por vontade própria – há 13 anos dos estúdios. A canção sampleada era "Deixa eu dizer", de Ronaldo Monteiro e Ivan Lins, lançada em 1973. Os versos dizem muito da necessidade que Claudya tem de cantar e de falar.

O “desabafo musical” acontece no álbum Senhor do tempo – canções raras de Caetano Veloso, que a cantora acaba de lançar. Produzido por Thiago Marques Luiz para a gravadora Jóia Moderna, do DJ Zé Pedro, o trabalho tem composições menos conhecidas do artista baiano, como "Maria Maria", "Louco por você", "Luzes" e "As várias pontas de uma estrela". Entre as mais conhecidas, estão "Naquela estação" – sucesso na voz de Adriana Calcanhoto – e "Menino Deus", gravada nos anos 1980 pelo grupo A cor do som.

O “desabafo verbal", pode-se dizer, acontece nesta entrevista a ÉPOCA. A carioca Claudya começou sua carreira na metade dos anos 1960. Após vencer um festival, foi chamada pelo produtor Ronaldo Bôscoli para fazer um show chamado “Quem tem medo de Elis Regina”. A ‘homenageada’ não gostou nada da história e interpelou Claudya em um programa de TV. Foi o suficiente para amigos e produtores virarem as costas para ela. Deu a volta por cima no começo dos anos 1970, quando emplacou sucessos como "Com mais de trinta", "Como 2 e 2", "Esse cara" e "Jesus Cristo".

Nos anos 1980, protagonizou a primeira versão do musical Evita no Brasil no papel de Evita Perón. Gravou até 1998. Mudou o nome artístico de Claudia para Claudya. Mais tarde para Claudya de Oliveira. Depois, o hiato de 13 anos só terminado agora. Confiante, ela acredita que essa é a sua segunda volta por cima. “Sabia que algo de bom estava para acontecer”, diz a cantora.

Na entrevista, Claudya fala do período em que ficou afastada dos discos. “Sobrevivi do meu talento, fazendo shows”, diz. Ela também conta a sua versão de um fato que a persegue até hoje: a suposta rivalidade com Elis. “Muitos fãs da Elis ainda me odeiam por conta dessa história. Muitos nem se deram conta que eu não fiz o tal show”, afirma. “Isso precisa ser esclarecido”, diz. 
ÉPOCA – Você e a Elis sempre foram apontadas como rivais. Até que ponto isso era verdade? 
Claudya –
 Eu nunca vi a Elis como rival. Vi-a como uma ótima cantora. O que aconteceu foi que o Ronaldo Bôscoli (produtor musical), na década de 60, me chamou para fazer um show chamado “Quem tem medo de Elis Regina”. Fui conversar com ele e disse que não podia fazer esse show. Eu queria fazer um show para divulgar o disco que eu estava lançando. Acho que ele tinha alguma mágoa com a Elis. Nunca entendi qual era o objetivo dele. Mas o fato foi que a Elis ficou sabendo e me convidou para participar do Fino da Bossa, programa que ela apresentava na Record. Ela me questionou no palco. Eu respondi que não tinha medo dela, só admiração, e que havia recusado o convite do Bôscoli. Mesmo assim, eu fui vaiada durante cinco minutos pelo público que estava no Teatro Record. Tive que esperar as vaias pararem para poder cantar. No dia seguinte, a imprensa toda acabou comigo. Nem fizeram questão de esclarecer que o show havia mudado de nome, passou a se chamar “Claudya não se aprende na escola”, título tirado de uma das músicas que estava no disco. Passei por maus pedaços. Foi muito feio o que fizerem comigo. Eu paguei uma pena muito grande dentro da música brasileira. Até hoje não me sinto inserida nela. 
ÉPOCA – Mas você acha que a Elis a convidou para o programa apenas para tirar satisfação? Claudya –Não sei o que passou na cabeça dela. O Fino da Bossa era um dos programas mais assistidos do Brasil e o que aconteceu me prejudicou muito. Eu era uma menina, tinha apenas 17 anos. Estava começando minha carreira. Era arrimo de família e precisava dar assistência a minha família. Eu passei fome. Nunca falei isso antes, mas não vejo mais motivos para esconder. Lembro minha mãe indo à TV Record pedir para o Marcos Lázaro, meu empresário na época, esclarecer tudo, mas ele não fez nada para me ajudar. Até hoje os fãs de Elis têm raiva de mim. 
ÉPOCA - O livro Furacão Elis, escrito por Regina Echeverria, lançado em 1985, descreve um briga entre você e a Elis. A autora diz que você teria empurrado a Elis em pleno palco... 
Claudya – 
Isso é mentira! Essa senhora nunca me procurou, nunca conversou comigo para perguntar se isso realmente aconteceu. Eu poderia processá-la... 
ÉPOCA – Mas você deu a volta por cima nos anos 1970... 
Claudya –
 Comecei a participar de festivais internacionais. Fui convidada para ir ao Japão. Voltei, fiz um show no Rio, mas ninguém foi. Um fracasso total. Até que um dia, um compositor chamado Alésio Barros me procurou para que eu cantasse uma música dele com o Eduardo Lages (hoje, maestro do Roberto Carlos). A canção chamava-se “Razão de paz para não cantar”. Ganhei o prêmio de melhor intérprete no Festival Internacional da Canção. Depois, participei de vários festivais pelo mundo. Foi assim que minha carreira voltou a acontecer. 
ÉPOCA – Por que decidiu dedicar seu novo trabalho às canções menos conhecidas de Caetano Veloso? 
Claudya –
 Há uns dois anos, o produtor Thiago Marques me procurou com esse projeto. Ele escolheu Caetano porque, nos anos 70, eu havia feito muito sucesso com duas canções dele, "Esse Cara" e "Como 2 e 2". As duas tocaram muito. Nesse tempo, eu tocava bastante nas rádios. O CD acabou saindo agora, pela gravadora do Zé Pedro. 
ÉPOCA – O CD tem uma cara bem jazzística. Foi uma escolha sua? 
Claudya 
– Sim. O disco é bem intimista. Eu acho que o jazz é uma música universal. O disco não vai envelhecer nunca. Aliás, ele já nasceu novo, sofisticado. O repertório foi escolhido pelo Thiago e pelo Zé Pedro. Muitas das músicas eu não conhecia. Tive que trabalhar nelas. Eu toco piano, fiz algumas concepções de arranjos, como em "As várias pontas de uma estrela", "Senhor do tempo", "Duas manhãs" e "Menino Deus". 
ÉPOCA – Você conversou com o Caetano sobre o CD? 
Claudya –
 Sim. Pedi a ele a autorização para gravar as músicas. Ele me recebeu muito bem. Eu perguntei: “Você permite que eu cante suas músicas?” Ele respondeu: “Nossa senhora! Vai ficar muito bom”. Foi o sinal verde. Há muito tempo que eu não falava com ele. Nós trabalhamos juntos na década de 60 em um programa da TV Excelsior chamadoEnsaio geral, que era dirigido pelo compositor Sidney Miller. Lá estavam todos eles, Caetano, Gal, Gil. Cantávamos juntos.
ÉPOCA – Antes de lançar esse novo CD, você ficou 13 anos sem gravar. O que aconteceu? 
Claudya –
 Olha, nem eu sei explicar. Na década de 90, a música brasileira tomou outro rumo. A verdadeira música brasileira ficou renegada. Nós, os grandes artistas, ficamos em segundo plano, esquecidos. Fomos excluídos do sistema, da indústria. Na verdade, gravei um disco em 2002, mas ele só foi lançado na Finlândia, Itália e Portugal. É um disco chamado A lua luará, com músicas do compositor finlandês Heiki Sarmanto e letras do mineiro Fernando Brant. Infelizmente não foi lançado por aqui. 
ÉPOCA – Como você encarou essa fase longe dos palcos? 
Claudya –
 Sobrevivi do meu talento. Fui fazendo shows, com músicas que gravei ao longo da carreira, meus grandes sucessos, cantando bossa nova. Foi um período muito difícil. Pensei até em desistir da carreira, abrir um negócio, uma loja. 
ÉPOCA – Você voltou também por causa do Marcelo D2... 
Claudya
 – Realmente. A nova geração não me conhecia e passou a saber quem eu era através dele. Foi um sucesso extraordinário. Até eu fiquei surpresa. Isso prova que música boa não tem tempo. Eu a gravei em 1973 e ela continua atual. Foi curioso que o sampler que o Marcelo D2 fez trazia um ritmo mais acelerado e minha voz mais aguda. Depois, gravamos juntos no DVD Samba Social Clube, no tom certo. 
ÉPOCA – Você protagonizou a primeira versão brasileira do musical Evita, na década de 1980. Assistiu à nova montagem (protagonizada por Daniel Boaventura e Paula Capovilla)? O que achou? 
Claudya
 – Assisti. Achei puramente técnico. Falta emoção. É bem diferente da montagem da qual participei. Para você ter um ideia, em uma de nossas apresentações no Rio de Janeiro, um senhor passou mal do coração na plateia. Era emocionante, forte, dramática. Eu estudei muito sobre a vida da Evita. Quem me ajudou bastante foi o diretor Mauricio Sherman. Eu estava com medo, ele me passou segurança. Disse que preferia uma cantora que pudesse ser atriz a uma atriz que não soubesse cantar. A fragilidade, a raiva, tudo tinha que ser jogado na voz.

1 - Maria Maria
2- Naquela estação
3- Senhor do tempo
4-Louco por você
5- Amo-te (mesmo?) muito
6- As várias pontas de uma estrela
7- O samba em paz
8- Pele
9 - Luzes
10 - José
11- Menino Deus
12- Duas manhãs
fonte Revista Epoca

Posted by Paulo Studiow @ sábado, 6 de agosto de 2011 0 comments

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